Vivemos cercados por um paradoxo cruel.
Em tempos de FOMO (Fear of missing out – livremente traduzido para o medo de ficar de fora), vejo uma geração cansada e o surgimento de um fenômeno curioso: “Medo de estar por dentro, de saber de tudo”.
A quantidade de informações às quais temos acesso é inversamente proporcional ao tempo que temos para acessar tudo e para dar conta de tudo. Até aqui, nada foge do óbvio.
Onde isso começa a ficar contraditório é no fato de que sabemos (ao menos racionalmente) que não é possível acompanhar tudo e dar conta de tudo. E ainda assim, parte da nossa cultura transformou a exaustão em algo quase desejável.
Boa parte dos conteúdos disponíveis fala inclusive sobre desacelerar e, ao mesmo tempo, há todo um glamour em uma agenda entulhada (lotada já não explica mais tanta sobreposição).
Quanto mais vidas performamos ao mesmo tempo — profissional, social, acadêmica, afetiva, digital —, mais parecemos vivos e importantes.
Mas o que realmente está vivo nisso tudo?
Na passagem de uma vida a ser vivida para uma vida a ser desejada pelos outros, os pequenos momentos perdem significado. Dificilmente os prazeres simples da vida encontram espaço em um palco onde tudo é diagramado para estar instagramável, sob a luz perfeita. A vida só acontece, simples assim.
Quando tudo vira performance, o burnout deixa de ser apenas um sintoma de algo que não vai bem e passa a ser confundido com dedicação e produtividade, tornando-se quase um troféu disfarçado de “alta performance”.
Burnout além do ambiente de trabalho
Embora o burnout seja reconhecido principalmente como um fenômeno relacionado ao trabalho, a lógica que o alimenta — excesso de exigência, impossibilidade de desligar e sensação constante de insuficiência — parece ter ultrapassado os limites do ambiente profissional.
Como psicanalista, tenho encontrado cada vez mais pessoas que não conseguem desligar. Não porque gostem desse ritmo, mas porque parar produz uma estranha sensação de atraso, a angústia de ficar de fora da própria vida que construiu. Como se a vida estivesse acontecendo em outro lugar. Como se sempre houvesse algo importante para acompanhar, aprender, consumir ou viver.
Aos poucos, o cansaço deixa de ser apenas um estado passageiro e passa a ocupar um lugar na identidade.
Quando o cansaço vira identidade
Sustentar uma identidade tem um custo. Costumamos associar o termo burnout ao ambiente corporativo, mas vale perguntar o que acontece quando o lazer começa a funcionar sob a mesma lógica e até um final de semana de lazer e passeio também vira trabalho. Você tem que pesquisar com antecedência, ter a certeza de que vai criar memórias e fazer valer a experiência.
Se o trabalho muitas vezes passa a ser permeado por momentos de ócio, distrações e pequenas fugas, o lazer parece ter virado um trabalho full time. Mais uma decisão a ser tomada. Uma lista infindável dos lugares que precisamos conhecer e um sentimento de inquietação quando as outras pessoas estão colecionando experiências com mais velocidade do que eu. Imagina chegar em uma roda de amigos e dizer que você tem o final de semana livre, sem nadinha…
Bem, no papel podemos misturar todas as palavras ao mesmo tempo, mas na vida real, a tal experiência e o relaxamento não combinam com a velocidade demandada. Até mesmo quando o momento está legal, você tem contas a prestar para os seus seguidores, likes para contar, a planilha nunca para (e com isso, a cabeça e a ansiedade também não).
O paradoxo do lazer que virou obrigação
Sabe aquela sensação de que são tantas as opções que ficamos sem opção ou exaustos já na largada?
Se no ambiente corporativo nos questionamos sobre a produtividade, na vida pessoal não é sobre o que sai bem feito ou o quanto se fez, mas sim, o que se viveu.
O peso da performance na experiência migratória
A cobrança por performance e a ideia de FOMO se apresentam de forma diferente quando a pessoa está transitando entre culturas, lidando com a pressão e a pressa de “dar certo” em outro país, ou comparando sua vida com quem ficou no Brasil. Não é raro que essa pressão seja acrescida pela sensação de que, para compensar a saudade e a distância, as conquistas precisam ser ainda mais grandiosas.
Se para quem está no Brasil a velocidade já é sufocante, para quem vive no exterior o peso dobra. Existe uma cobrança invisível de que a vida lá fora precisa ser perfeita, instagramável e plenamente aproveitada a cada segundo. O lazer vira a obrigação de turistar, acumular viagens e provar para quem ficou que a escolha valeu a pena. Quem está com um visto temporário (expatriados de empresas e intercambistas, entre outros) sofre ainda mais com esse tempo que está passando e esgotando a possibilidade de realizar tudo o que se imaginou para aquele período.
Mas quanto da vida nova você realmente habita enquanto corre para não perder nada?
Romper com essa lógica produtivista não é uma tarefa simples de gerenciamento de tempo; exige olhar para dentro. Na escuta clínica não é raro observar estes fenômenos nas pessoas que transitam entre diferentes culturas, contextos sociais e exigências de adaptação. Por vezes, a angústia de ‘não pertencer’ ou de ‘ficar para trás’ paralisa. É preciso reaprender a habitar o próprio corpo e a própria história. Quando até o descanso vira performance, o processo de adaptação cultural (que por si só traz muitos desafios) se transforma em um fardo silencioso.
O custo invisível da exaustão
Talvez a questão não seja quantas experiências acumulamos, quantos lugares conhecemos ou quantas versões de nós mesmos conseguimos sustentar ao mesmo tempo. Talvez a pergunta seja outra: quanto da vida conseguimos realmente habitar enquanto corríamos para não perder nada?
Porque, quando até descansar vira trabalho, corremos o risco de transformar a própria existência em mais uma tarefa a cumprir.
Imagens: Freepik e Imagem de stockking no Magnific
Publicado originalmente em 01/06/2026 em: https://www.angelapsi.com.br/post/quando-ate-descansar-virou-trabalho-burnout-fomo-e-a-glamourizacao-da-exaustao






