Morar fora e sentir sozinho - por Angela Mazzotti Mestriner - psicologa

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Morar fora e se sentir sozinho: por que isso é mais comum do que parece?

Você já se sentiu sozinho mesmo estando rodeado de pessoas?

Para muitos brasileiros que vivem no exterior, a solidão não aparece apenas na ausência de companhia. Ela pode surgir em uma mesa cheia, em uma videochamada com a família ou até mesmo entre outros brasileiros.

Muitas pessoas sonham em morar fora e alimentam a expectativa de encontrar no novo país tudo aquilo que imaginaram para si. Nem sempre, porém, o encontro com essa nova vida corresponde ao que havia sido imaginado.

Quando a realidade se coloca muito diferente das expectativas pré-migratórias, a reação de alguns imigrantes será de se isolar e até mesmo de olhar mais para o que ficou no país de origem do que para a vida que está construindo ali.

O que se perde toma um contorno de encantamento e os problemas que existiam se apagam. Como no fim de um relacionamento, tendemos a ver o que se perdeu com mais romantismo e com uma certa idealização.

O novo, a mudança, sempre é um desafio e muitas vezes isso assusta. Nem todos vão reagir da mesma maneira frente às novidades.

Conviver com pessoas diferentes, um novo idioma, hábitos até então desconhecidos, até a comida com outro sabor é encantador para alguns e assustador para outros. Ao mesmo tempo em que existe entusiasmo, também pode haver medo, incertezas e um sentimento de solidão.

Para algumas pessoas a chegada será mais difícil pelo recente afastamento do vínculo, as despedidas ainda frescas na memória, tornando essa etapa de adaptação mais desafiadora. Outras terão o efeito de encantamento inicial, de descobertas, passando a sentir a separação e tendo maior percepção do que ficou para trás depois de um tempo de imigração. Não há uma regra. As estratégias de adaptação cultural descritas por John Berry (integração, assimilação, separação e marginalização) não são lineares, podem ser vividas com idas e vindas.

Não é incomum surgir um sentimento de que tudo o que eu sou, todas as minhas experiências, não servem para nada, que terei que ser outra pessoa e isso não é uma verdade, o desafio está em adaptar a sua bagagem e o seu eu ao novo local, reacomodar algumas referências.

 

Quando a gratidão impede o sofrimento de existir

Por se sentir grato pela oportunidade de imigrar, muitas vezes surge o pensamento: “Não tenho direito de reclamar”. Parece controverso reclamar quando você conseguiu o que queria, tem o sentimento de estar em um lugar seguro, tendo oportunidades de crescimento. É como se isso anulasse o fato de que nem todos os dias são fáceis.

Você sente falta da família, sente solidão, sente dificuldades de adaptação e, por vezes, acha que não pode sofrer porque escolheu estar ali.

Algumas pessoas tentam se adaptar, corresponder às expectativas e seguir em frente. Nesse processo podem acabar vivendo suas dificuldades em silêncio e se sentindo sozinhas ou até mesmo envergonhadas pelo que estão sentindo. O isolamento acaba surgindo como uma resposta a esses sentimentos todos que ficam varridos para debaixo do tapete.

O sentimento de não ter o direito de reclamar é muitas vezes reforçado pelos que ficaram. Quem olha de fora vê o encantamento com a imigração, mas não vê muitas das dores que ela carrega também. Nesse momento observamos um fenômeno que não é incomum, que é a dificuldade em contar a família o que está acontecendo, seja pelo medo de preocupar os que ficaram, seja por não ser compreendido e ter a sensação de estar sendo ingrato, seja pelo medo do simplista “então volta”, quando a questão não é sobre permanecer ou voltar, mas sobre como está sendo vivido este momento.

Mesmo depois de anos, não é incomum o relato de uma sensação de vazio, de não pertencer totalmente a lugar nenhum e de se sentir incompreendido, inclusive pelas pessoas mais próximas. Uma vida no piloto automático, sem se reconhecer.

Você já teve o sentimento de que “Sou menos eu aqui?”

O sentimento de sou menos eu aqui, ou até mesmo a ideia de que sou diferente em diferentes idiomas, mais formal, mais divertido, mais fechado ou expansivo costuma aparecer com alta frequência.

As percepções simbólicas de mudança se unem com as perdas reais. Os diplomas perdem valor, as referências culturais deixam de funcionar, até as formas de humor mudam. É necessário aprender a ocupar novos lugares.

Um ponto interessante de se pensar é que mesmo que você estivesse no seu país, também teria mudado. De maneira diferente, mas não seria o mesmo. O passar do tempo e das fases da vida nos faz necessariamente ir mudando, mas, com a imigração é comum que se atribuam todas as mudanças ao fato de estar em outro país.

Estar em um grupo familiar ou de amigos pode tornar esse processo de adaptação mais fácil, embora, em algumas situações as diferentes reações ao novo país apareçam como um agravante ao sentimento de solidão.

A solidão mesmo quando estamos cercados de pessoas

A adaptação é diferente para cada um. O sentimento de que um conseguiu os seus objetivos e o outro não, as referências diferentes do que significa para cada um o que ficou para trás e as novas relações são construídas de forma singular.

A solidão pode existir até mesmo dentro da comunidade brasileira. Ter a mesma origem pode também trazer o sentimento de que não nos encaixamos nem entre os nossos. Alguns brasileiros saem do Brasil por já não se identificar tanto com a cultura. Outros levam o sentimento de brasilidade de outra maneira. Somos de um país de dimensões continentais e permeado por inúmeras culturas. Comida, música e tradições variam amplamente no território brasileiro, não há um único Brasil no imaginário de todos os imigrantes (nem mesmo dos brasileiros que aqui estão).

A solidão na imigração nem sempre nasce da ausência de pessoas. Muitas vezes ela surge da sensação de não saber mais onde pertencemos.

Entre o país que ficou para trás e a vida que ainda está sendo construída, existe um espaço de travessia que nem sempre é visível para quem observa de fora.

E talvez uma das tarefas mais difíceis da experiência migratória seja justamente essa: encontrar uma forma de continuar sendo você enquanto tantas referências ao redor mudam.

Te convido a ler o meu capítulo “Isolamento Social e Solidão no Processo Migratório”, publicado no livro Mentes Imigrantes. Nele, abordo de maneira mais aprofundada esse tema tão delicado e presente na vida dos imigrantes.

Imagens: Wirestock no Magnific e Freepik

 

Texto publicado originalmente em 20/06/2026: https://www.angelapsi.com.br/post/morar-fora-e-se-sentir-sozinho-por-que-isso-e-mais-comum-do-que-parece

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