O que esse fenômeno revela sobre solidão, vínculos, frustração e relacionamentos na contemporaneidade.
A internet celebra quem consegue viver sozinho.
Mas… Será que toda escolha pela solidão nasce da liberdade?
Ou algumas nascem do medo?
Da decepção? Do cansaço?
Da dificuldade de confiar novamente?
Da sensação de que relacionamentos sempre machucam?
Mas, antes de tudo, vamos começar pelo começo: o que é Solo Maxxing?
Nos últimos meses, um novo termo ganhou espaço nas redes sociais: Solo Maxxing. A proposta parece simples: investir na própria vida, aprender a aproveitar a própria companhia e deixar de colocar os relacionamentos no centro da existência. Em muitos aspectos, isso pode ser extremamente saudável. Mas talvez a questão mais interessante não seja por que algumas pessoas escolhem estar sozinhas, e sim o que essa escolha revela sobre a forma como temos lidado com a diferença, a frustração e os vínculos.
Encontramos também Solo Maxxing usado com uma contraposição à ideia de que “é preciso estar em um relacionamento para ser feliz”.
Se para Tom Jobim e Vinícius de Moraes “Fundamental é mesmo o amor / É impossível ser feliz sozinho”, para a Gen Z a realidade é outra. Ouso dizer que até afirmam o contrário, que é impossível conciliar a felicidade com um relacionamento. É nesse espaço de reflexão que proponho circular.
Estar bem sozinho é a mesma coisa que não precisar de ninguém?
Estar com alguém é o mesmo que precisar do outro? Ou é querer dividir a vida com ele, sem depender dele?
Entende a diferença? Estar com alguém, precisar dele e depender dele são experiências profundamente diferentes. São lugares muito diferentes de se viver um relacionamento.
Nosso olhar aqui se volta muito mais para a capacidade de construir vínculos do que para um ideal de estar sozinho ou acompanhado, até porque, não existe um único caminho. Um olhar para compreender o que o Solo Maxxing revela sobre nós.
Aprender a estar sozinho é diferente de desistir dos vínculos.
Quando o psicanalista Winnicott fala sobre a capacidade de estar só, não está falando de uma independência absoluta, mas de alguém que foi suficientemente acompanhado para poder estar sozinho sem se sentir abandonado. Veja como estamos falando de uma diferença muito grande nas formas de olhar o fenômeno.
Muito se fala hoje sobre o “alto custo” de um relacionamento, sobre a inflação dos dates e o quanto seria mais vantajoso investir apenas em si mesmo. Isso me faz pensar: quando foi que um relacionamento passou a ter apenas preço e deixou de ter valor?
Existe uma dificuldade contemporânea de sustentar o encontro com o outro, mas esta dificuldade pouco está relacionada ao financeiro. Aqui parece ser um daqueles pontos da vida em que o argumento financeiro serve de escudo para outras dificuldades que não estão aparecendo se focarmos só nisso.
Estamos aprendendo a aproveitar a própria companhia… ou estamos desaprendendo a sustentar o encontro com o outro?
Sustentar o encontro com o outro é sustentar as diferenças. Uma das maiores dificuldades de se relacionar com alguém é o tênue equilíbrio entre o que é possível ceder e negociar e o que não é e como conciliar isso sem se perder.
Nem toda solidão é liberdade. Assim como nem todo relacionamento é dependência.
Na clínica é possível perceber que o medo de como será o relacionamento por vezes é tão grande que a pessoa prefere a solidão do que correr esse risco. Muitas pessoas chegam dizendo que escolheram ficar sozinhas. Conforme a análise avança, às vezes descobrimos que não se trata exatamente de uma escolha pela solidão, mas de uma tentativa de evitar o sofrimento que imaginam inevitável em qualquer vínculo.
No romance Quando Nietzche Chorou encontramos uma frase famosa, que representa muito do conflito atual (atribuída ao filosofo, embora seja mesmo de Yalom):
“Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeira companhia”.
Estar bem consigo mesmo ou evitar o encontro com o outro?
É um desafio dos tempos atuais conseguir conciliar a independência emocional com o fato de estar em um relacionamento. Parece algo lógico de que uma pessoa que está sozinha tem esta independência, mas nem sempre o isolamento emocional vem de uma independência, mas sim, de uma dificuldade de criar vínculos pelo medo de se perder neste vínculo.
Existem outras saídas além de evitar os relacionamentos.
Estar com o outro, sem dúvidas, demanda um trabalho emocional. Lidar com o que há de diferente no outro (a alteridade) e com a frustração que surge quando o período inicial de idealização termina e o outro aparece como realmente é.
O crescimento da expressão “responsabilidade emocional” revela justamente o quanto muitos vínculos passaram a ser vividos como experiências de desamparo, objetificação ou descarte. Quando precisamos transformar em conceito algo que antes parecia implícito, talvez seja porque aquilo deixou de ser vivido como evidente. Estamos falando de pessoas que saíram muito feridas de alguns relacionamentos, da necessidade de defender-se pelo medo do que já se viveu.
Para cuidar do outro é necessário primeiro cuidar de si, quanto mais me conheço, maior a probabilidade de que eu possa ser honesto comigo e com o outro, que eu possa reconhecer os relacionamentos ou até mesmo a solidão como escolha, não como refúgio. Os destinos são muitos e saber a razão da sua escolha é fundamental na escolha do caminho.
Talvez o Solo Maxxing nos ensine algo importante: aprender a estar sozinho pode ser um sinal de amadurecimento. Mas transformar a solidão na única forma possível de viver pode ser apenas outra maneira de organizar o medo. Mais do que decidir se devemos estar sozinhos ou acompanhados, podemos pensar se a escolha que fazemos amplia a nossa vida ou apenas nos protege dela.
Às vezes, compreender essa diferença é justamente o que começa a transformar a forma como nos relacionamos — com os outros e conosco.
Imagens: Freepik
Referências:
JOBIM, Tom; MORAES, Vinicius de. Wave. Intérprete: Tom Jobim. Rio de Janeiro: A&M Records, 1967.
YALOM, Irvin D. Quando Nietzsche Chorou. Tradução de Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.
Artigo publicado originalmente em: https://www.angelapsi.com.br/post/solo-maxxing-quando-estar-sozinho-e-uma-escolha-e-quando-e-uma-defesa






