Agneta é uma mulher de meia-idade, com uma “vida normal”, nem boa, nem ruim. Não mora no seu lugar dos sonhos, mas também não odeia onde mora. Não tem um trabalho incrível, mas também não padece do seu trabalho. Quando o externo impõe uma quebra na sua rotina, a demissão a deixa perdida. E, paradoxalmente, talvez mais encontrada do que nunca.
De repente, demitida do seu emprego seguro, Agneta busca algo novo e aceita uma vaga de au pair na França. Mal poderia imaginar que a criança que iria cuidar seria metafórica. A psicanálise olha para o infantil em cada um de nós. De repente, parece que Agneta encontra mais de uma criança: encontra o seu próprio infantil e o infantil de Einar.
No encontro com Einar, Agneta também se depara com os fantasmas que o habitam. É no entrecruzamento desses fantasmas que ambos vão encontrando o espaço para serem, enfim, eles mesmos.
Ela sempre sonhou com a França, os campos de lavanda, os queijos, a leveza. Assistia pela tela à vida que desejava ter. Agneta se encanta com a liberdade dos franceses para beber, comer e não pedir desculpas. Descobre uma relação com a comida pautada pelo prazer, e não pelo terrorismo alimentar que tanto conhece.
Ao longo do filme, nos deparamos com tantas limitações e tantos “nãos” que ela carregou durante anos, sem saber por quê e para quem.
Quando a vemos abraçar o próprio corpo — um corpo real, que não é instagramável, com um braço não definido (que tem que ficar escondido embaixo do casaco) e uma barriga saliente —, vemos também ela refletir sobre o excesso que tanto pesou até então. Surge então a pergunta que desarma: “Pesou para quem?”. É um momento bonito e doloroso, daqueles que costumam ecoar no consultório.
No meu trabalho como psicanalista, escuto frequentemente histórias como a de Agneta. Pessoas que, por muito tempo, viveram limitadas pelo desejo de caber nos desejos dos outros, adiando os próprios. Pessoas que se perderam das próprias capacidades por deixar a vida nas mãos alheias. A psicanálise oferece justamente esse espaço: um lugar onde é possível olhar para essas amarras com compaixão e começar a resgatar o que foi adiado.
De início, tanto Erin quanto Agneta não enxergam onde esse encontro possa ser benéfico para nenhum dos dois. No final, ambos cuidam um do outro e há um resgate de partes de cada um que só acontece em função do encontro. É nesses encontros que a vida toma cor, que há, como fala no filme, “a muda”, quando os pássaros mudam a cor de sua plumagem após os filhotes deixarem o ninho. Analogia interessante, já que os casais humanos também precisam se reinventar após os filhos saírem de casa. O movimento de retorno do olhar para o que é do casal nem sempre é fácil. No caso de Agneta e Magnus, ele não aconteceu: cada um seguiu um caminho diferente.
Outra fronteira importante que o filme atravessa é a questão da nossa própria participação nas situações que vivemos. Em vez de vermos Magnus apenas como o machista que impõe regras, podemos nos perguntar: o que Agneta permitiu que fosse construído? Qual foi a sua acomodação nessa dinâmica?
Sempre penso ser relevante buscarmos a nossa colaboração nas situações em que nos encontramos. A famosa frase atribuída a Freud: “Qual é a sua responsabilidade na bagunça na qual você se encontra?”.
Questionar o quanto ganhamos responsabilizando o outro e nos acomodando em não ir atrás do que queremos. Em um primeiro momento, frente aos percalços, Agneta busca em Magnus uma saída, como um “me tire daqui”. Por sorte, não há passagens disponíveis para a data e Agneta precisa encontrar um caminho por si própria. Um lindo caminho, por sinal!
Em muitos aspectos, Magnus tinha razão: ela realmente não sabia uma palavra em francês e iria se atrapalhar com as questões práticas. Acostumada a deixar a vida nas mãos do outro, Agneta foi se perdendo das próprias capacidades e foi também aprendendo a recuperá-las nos momentos de necessidade.
Como questiona Martha Medeiros no livro Divã (2002): “Em que outro idioma nos faríamos entender, se não o da socialização?” (p. 27).
Na necessidade de se socializar, Agneta se fez entender e também aprendeu a compreender os que lhe cercam. As pessoas que escolhem sair do seu país, seja a passeio ou para construir uma nova vida, se deparam com essa necessidade de socialização, de aprender a compreender o outro — um esforço duplo quando, além da subjetividade, também há o idioma nesse entremeio.
No encontro com Erin, Agneta vê uma vida oposta à sua. Tudo o que Agneta se privou, ele se permitiu. Viver a vida que desejou também fez com que Erin pagasse um preço alto por isso. Ele usava da alegria extrema e do jeito excêntrico para evitar a tristeza e o embate com as suas dores. Agneta aprendeu a permitir-se mais e a viver mais; Erin aprendeu que as dores também podem ser olhadas, sentidas e reelaboradas.
Um filme que nos leva a pensar em todas as amarras que nos colocamos pelo uso que fazemos dos olhos e desejos dos outros, e que nos leva a refletir sobre qual realmente é o nosso destino.
Se você também se reconhece em Agneta — cansada de viver uma vida que “quase cabe”, entre dois países, duas culturas ou duas fases da vida —, talvez seja o momento de olhar para dentro. A psicanálise é um espaço potente para resgatar o que foi adiado e reinventar o próprio caminho.
Estou aqui para te acompanhar na travessia da sua jornada.
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Imagem: Cartaz de divulgação do filme.
Texto publicado originalmente em 15/05/2026 em: https://www.angelapsi.com.br/post/das-tantas-fronteiras-que-agneta-atravessa






