Artigo publicado originalmente na RBL Magazine – Orlando/Flórida, edição de setembro de 2026.
Neste artigo, reflito sobre a relação entre o sentimento de invisibilidade e a solidão vivenciados por algumas pessoas no processo migratório, especialmente diante dos desafios de pertencimento, reconstrução de vínculos e identidade.
O sonho infantil de ser invisível pode se tornar o maior pesadelo de um imigrante. É como se existisse um espaço entre duas margens onde ainda estamos aprendendo a existir.
Algumas pessoas sentem que já não pertencem ao país que deixaram e ainda não se reconhecem como parte do novo lugar.
Você chega a um lugar onde a vida já está acontecendo. As pessoas já têm seus grupos, rotinas, interesses. Surge a sensação de não encontrar um espaço de pertencimento ali e de já não ocupar o lugar que ficou para trás, afinal, a vida seguiu.
Na correria do dia a dia, quem está à volta raramente percebe o enorme esforço do imigrante para tentar encontrar esse lugar no mundo. As pessoas seguem combinando seus programas com os grupos de amigos, muitas vezes diante de você. E o sentimento é de que você está invisível ali.
Diante desse apagamento e dessa invisibilidade, as reações são singulares. Algumas pessoas se fecham, silenciam e desistem de tentar. Não por preguiça, mas pela exaustão de tentar ocupar um lugar que ainda parece não existir.
Vivemos em uma época que espera resultados rápidos. Mas pertencimento, vínculos e reconstrução de identidade não acontecem por decreto. Se constroem nas pequenas escolhas diárias, nos vínculos que se formam, nas referências que pouco a pouco deixam de ser completamente estranhas.
Existe uma diferença importante entre adaptar-se e apressar-se. Respeitar o próprio tempo não significa desistir do processo. Significa permitir que ele aconteça.
O pertencimento talvez seja mais do que reencontrar o lugar que ficou para trás ou ocupar imediatamente um novo espaço. É o que vai sendo construído enquanto aprendemos, aos poucos, a existir entre essas duas margens.
*Psicóloga CRP 07/15.556 (Universidade de Caxias do Sul), Psicanalista (Instituição Psicanalítica Constructo), Associado Efetivo Instituição Psicanalítica Constructo, Especialista em Psicologia Clínica – Abordagem Psicanalítica do Sujeito Contemporâneo (Universidade de Caxias do Sul), Formação em Psicologia Intercultural na Prática Clínica para Brasileiros no Exterior (FaCiência – Psi Terapia no Exterior). Autora do capítulo Isolamento social e solidão no processo migratório em Mentes Imigrantes.
https://revista.rblmagazine.com/books/RBL-MAGAZINE-SETEMBRO-2026/#p=63






