Brasileiros em Nagoya, Japão
Japão

Brasileiros em Nagoya — a maior comunidade dekassegui do país, entre duas identidades

Nagoya é a capital da província de Aichi, que concentra cerca de 50 mil brasileiros, a maior comunidade do Japão e quase o dobro da segunda colocada, Shizuoka. Diferente da maioria dos destinos de emigração brasileira, essa comunidade não nasceu de vistos de estudo ou de trabalho comum: ela existe porque, desde 1990, o governo japonês permite que descendentes de japoneses até a terceira geração morem e trabalhem no país. São os chamados dekasseguis, e boa parte deles hoje trabalha na indústria automotiva que move a economia da região, com destaque para fábricas ligadas à Toyota.

IndicadorDado
Total de brasileiros no Japão (dez/2025)210.014 (queda de 1.893 em relação a 2024)
Posição do Brasil entre as maiores comunidades estrangeiras no Japão7ª maior
Brasileiros na província de Aichi (Nagoya é a capital)~50 mil, a maior concentração do país
Pico histórico da comunidade brasileira no Japão (2005)~302 mil
Ano da reforma que permitiu a vinda de descendentes de japoneses (nikkeis)1990

Uma migração baseada em ascendência, não em visto de estudo ou trabalho comum

A presença brasileira em Nagoya tem uma origem bem diferente da de destinos como Irlanda, Canadá ou Austrália. Em 1990, o Japão revisou sua lei de imigração para permitir que nikkeis, descendentes de japoneses nascidos fora do país até a terceira geração, e seus cônjuges, pudessem viver e trabalhar livremente no território japonês. Como o Brasil abriga a maior comunidade de descendentes de japoneses fora do Japão, o país se tornou rapidamente a principal origem desses trabalhadores, que ficaram conhecidos como dekasseguis, um termo que junta os verbos "sair" e "ganhar dinheiro" em japonês.

Por que Aichi, e por que Nagoya especificamente

A concentração de brasileiros em Aichi e nas cidades vizinhas de Toyohashi e Toyota não é coincidência: a região abriga um dos maiores polos industriais automotivos do Japão, incluindo fábricas ligadas à Toyota, e por décadas recrutou ativamente mão de obra dekassegui para as linhas de produção. A presença brasileira é visível no dia a dia da cidade, com sinalização em português em espaços públicos como o metrô de Nagoya, algo raro mesmo para o inglês em muitas regiões do Japão.

Uma comunidade que já foi maior, e voltou a diminuir

A população brasileira no Japão não seguiu uma trajetória de crescimento constante. Ela chegou a superar 300 mil pessoas em 2005, mas caiu para cerca de 254 mil já em 2011, principalmente por causa da crise econômica global de 2008, que reduziu drasticamente as vagas nas fábricas e levou o próprio governo japonês a oferecer, na época, um programa de apoio ao retorno para quem quisesse voltar ao Brasil. A partir de 2018, o fluxo voltou a crescer, impulsionado por instabilidades econômicas no Brasil, mas os dados mais recentes, de dezembro de 2025, mostram uma nova e discreta queda, de cerca de 1.900 pessoas em um ano, mesmo com o número total de estrangeiros no Japão batendo recorde histórico.

O paradoxo de ser brasileiro com rosto japonês

Uma característica que diferencia profundamente essa comunidade de outras no exterior é que boa parte dela chega ao Japão fisicamente parecida com a população local, mas culturalmente formada no Brasil: fala português como língua materna, muitas vezes com pouco ou nenhum japonês fluente, e carrega hábitos, humor e referências brasileiras. Isso costuma gerar uma experiência de estranhamento particular, muitas vezes descrita como sentir-se estrangeiro justamente no país de onde a própria família veio, sem o alívio de, ao menos, ser reconhecido como estrangeiro à primeira vista.

O que a pesquisa mostra sobre os filhos de dekasseguis

Esse paradoxo de identidade se aprofunda ainda mais na segunda geração. Pesquisas conduzidas por especialistas ligados à JICA (Agência de Cooperação Internacional do Japão), incluindo estudos específicos sobre os aspectos psicológicos dos filhos de brasileiros nikkeis, mostram que essas crianças e adolescentes lidam com desafios particulares de pertencimento: nascidos ou criados no Japão, filhos de pais brasileiros, e vistos por parte da sociedade japonesa como estrangeiros mesmo tendo ascendência japonesa. Esse é um tipo de tensão identitária que não se resolve com o tempo de adaptação sozinho, e que se beneficia de um olhar profissional específico para a experiência dekassegui, diferente do olhar aplicado a outras comunidades de brasileiros no exterior.

Quem busca apoio profissional especializado para brasileiros no exterior pode consultar o diretório do SobreviverFora: psicólogos, psiquiatras, médicos, profissionais de apoio e serviços especializados para quem vive fora do Brasil. O atendimento é particular, contratado diretamente com o profissional ou empresa escolhida.

Quer trocar experiências com outros brasileiros no Japão? O SobreviverFora reúne uma lista de comunidades de brasileiros no exterior, incluindo grupos no Facebook.

Perguntas frequentes

Quantos brasileiros vivem em Nagoya e na região de Aichi?

A província de Aichi, da qual Nagoya é a capital, concentra cerca de 50 mil brasileiros, a maior comunidade do país, quase o dobro da segunda colocada, Shizuoka. No Japão como um todo, viviam 210.014 brasileiros em dezembro de 2025.

O que é um dekassegui?

É o termo usado para descendentes de japoneses, e seus cônjuges, que migram do Brasil para trabalhar no Japão amparados pela reforma migratória de 1990, que permite a descendentes até a terceira geração viver e trabalhar livremente no país.

Por que a comunidade brasileira se concentra em Nagoya e Aichi?

A região abriga um dos maiores polos industriais automotivos do Japão, incluindo fábricas ligadas à Toyota, e por décadas recrutou ativamente mão de obra brasileira para suas linhas de produção.

A comunidade brasileira no Japão está crescendo ou diminuindo?

Os dados mais recentes, de dezembro de 2025, mostram uma leve queda de cerca de 1.900 pessoas em relação a 2024. A comunidade já foi bem maior, chegando a mais de 300 mil pessoas em 2005, antes de recuar após a crise econômica de 2008.

Filhos de brasileiros nascidos no Japão enfrentam desafios de identidade?

Sim. Pesquisas ligadas à JICA (Agência de Cooperação Internacional do Japão) mostram que filhos de dekasseguis lidam com uma tensão particular de pertencimento, sendo vistos por parte da sociedade japonesa como estrangeiros mesmo tendo ascendência japonesa.