Vergonha de ter fracassado no exterior

A vergonha de admitir que não deu certo lá fora

Rodrigo perdeu o emprego em Lisboa três meses depois de fechar um financiamento para trazer a família. Passou seis meses tentando se recolocar, viu as economias acabarem, e acabou aceitando um trabalho muito abaixo da sua qualificação só para não voltar ao Brasil “de mãos vazias”. Quando finalmente contou para os pais, esperava julgamento.

O que ouviu foi silêncio, seguido de uma pergunta simples: “por que você demorou tanto para nos contar?”. A resposta, ele sabia, não tinha a ver com os pais. Tinha a ver com a vergonha que ele mesmo havia construído em torno da própria dificuldade.

Existe um tipo de luto migratório que carrega um peso extra: a vergonha. Não é apenas lidar com uma dificuldade concreta, dívida, desemprego, necessidade de recomeço, é lidar com ela sob o peso de uma narrativa social que trata migrar como sinônimo de sucesso, e qualquer desvio disso como fracasso pessoal.

Conteúdo produzido pela Equipe SobreViverFora. Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou psicológica individual.

A vergonha é maior do que a dificuldade em si

É importante nomear algo que costuma passar despercebido: para muitas pessoas nessa situação, a vergonha de admitir a dificuldade dói mais do que a própria dificuldade financeira. Perder um emprego, acumular dívidas ou precisar recomeçar do zero são eventos concretos, com soluções práticas possíveis.

A vergonha, por outro lado, é um processo emocional que se instala por cima desses eventos, e que muitas vezes impede a pessoa de buscar ajuda, justamente no momento em que mais precisaria dela.

Esse mecanismo tem uma lógica cruel: quanto mais tempo a dificuldade é escondida, maior fica a vergonha de revelá-la, porque ao peso do problema original se soma o peso de “ter escondido por tanto tempo”. É um ciclo que se retroalimenta, e que raramente se resolve sozinho, sem que a pessoa decida, conscientemente, interrompê-lo.

De onde vem a narrativa de que migrar precisa dar certo

Grande parte dessa vergonha tem raiz numa narrativa cultural amplamente compartilhada: a de que morar fora do Brasil é, por definição, um upgrade de vida, e que qualquer dificuldade nesse caminho representa um desperdício de uma oportunidade que “tantos brasileiros gostariam de ter”.

Essa narrativa ignora um fato simples: migração envolve risco, e risco, por definição, inclui a possibilidade real de que as coisas não saiam como planejado, por motivos que muitas vezes fogem completamente do controle de quem migrou, como crises econômicas, mudanças em políticas de imigração ou simplesmente má sorte no timing de uma demissão.

Essa pressão externa se soma a uma pressão interna, muitas vezes mais forte ainda: a de justificar, para si mesmo, todo o esforço e sacrifício que a decisão de migrar exigiu. Admitir dificuldade pode parecer, nesse contexto, uma traição ao próprio esforço passado, o que intensifica a resistência em falar sobre isso abertamente.

O que alimenta o silêncio sobre dívidas e dificuldades

Três fatores costumam alimentar esse silêncio de forma particularmente forte. Primeiro, as redes sociais, onde a vida de outros brasileiros no exterior aparece quase sempre editada para mostrar apenas conquistas, criando uma falsa impressão de que a dificuldade é exceção, quando na verdade é parte comum da experiência migratória de muita gente que simplesmente não fala sobre isso publicamente.

Segundo, o medo de preocupar a família no Brasil, especialmente pais que já se preocupam à distância com a segurança e o bem-estar de quem está fora. Essa dinâmica se conecta diretamente ao desafio mais amplo de explicar para a família que você não está bem, mas ganha contornos específicos quando o que está em jogo é uma dificuldade financeira concreta, que pode gerar não apenas preocupação, mas também julgamento sobre decisões passadas.

Terceiro, o medo de que admitir a dificuldade seja interpretado como um convite a conselhos indesejados ou a pressão para voltar imediatamente ao Brasil, antes que a pessoa tenha tido tempo de processar suas próprias opções.

Separar fracasso pessoal de circunstância

Um dos passos mais importantes nesse processo é separar duas coisas que costumam ficar coladas: o resultado de uma circunstância e o valor pessoal de quem a viveu. Perder um emprego numa crise econômica, ter uma proposta de negócio que não vingou, ou precisar de mais tempo do que o planejado para se estabilizar financeiramente, são circunstâncias, não veredictos sobre a capacidade ou o caráter de alguém.

Isso não significa negar a dificuldade real da situação, dívidas existem, recomeços são exaustivos, e minimizar isso não ajuda. Significa, isso sim, parar de tratar a dificuldade como prova de uma falha pessoal definitiva, e passar a tratá-la como o que de fato é: um momento difícil dentro de uma trajetória mais longa, que não se resume a ele.

Como atravessar essa vergonha e romper o isolamento

Romper o silêncio, mesmo que de forma gradual e escolhendo com cuidado com quem falar primeiro, costuma ser o passo que mais alivia o peso da vergonha. Isso pode começar com uma pessoa de confiança, dentro ou fora da família, antes de se estender para conversas mais amplas. Na maioria dos relatos, o julgamento temido é maior na imaginação do que na reação real das pessoas próximas.

Também ajuda buscar, ativamente, histórias de outros brasileiros que passaram por dificuldades semelhantes no exterior e reconstruíram a vida a partir delas. Saber que essa experiência não é rara, mesmo que pouco visível, reduz a sensação de isolamento que costuma acompanhar esse tipo de vergonha.

Para quem sente que essa vergonha está se transformando em isolamento social significativo, ou em um padrão de autocrítica que não afrouxa mesmo diante de melhorias práticas na situação, conversar com um psicólogo que entenda o contexto migratório ajuda a processar tanto a dificuldade concreta quanto a narrativa de fracasso que se formou em torno dela.

Uma dificuldade financeira ou profissional no exterior é uma circunstância, não uma sentença sobre quem você é. A vergonha que a acompanha costuma ser mais pesada do que a própria dificuldade, e é sobre essa vergonha, especificamente, que vale a pena buscar ajuda.

Perguntas frequentes

Por que sinto tanta vergonha de admitir que estou com dificuldades no exterior?

Porque a decisão de migrar costuma ser vivida, socialmente, como uma prova de coragem e sucesso. Admitir dificuldades pode parecer, para quem migrou, uma confissão de fracasso pessoal, mesmo quando as dificuldades têm causas estruturais, como mercado de trabalho, câmbio ou imprevistos que fugiram do controle da pessoa.

Voltar para o Brasil por causa de dívidas ou dificuldades significa que fracassei?

Não. Um retorno motivado por dificuldades financeiras ou profissionais é uma resposta prática a uma circunstância, não uma medida do valor pessoal de alguém. É comum confundir as duas coisas, mas separá-las ajuda a atravessar esse momento sem carregar um peso emocional que não corresponde à realidade da situação.

Como lidar com o julgamento de outras pessoas sobre isso?

Grande parte do julgamento antecipado é imaginado ou superestimado. Quando a conversa acontece de forma direta e honesta, a reação de familiares e amigos costuma ser mais compreensiva do que o cenário temido. Ainda assim, é legítimo escolher com quem e quando compartilhar essa parte da experiência, no seu próprio tempo.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui aconselhamento psicológico, diagnóstico ou indicação de tratamento. Em caso de crise emocional, ligue para o CVV: 188 (válido no Brasil, 24h, gratuito). Se você está fora do Brasil, acesse findahelpline.com.

O Diretório de Profissionais do SobreViverFora reúne profissionais brasileiros que atendem expatriados, com atendimento particular contratado diretamente com o profissional escolhido.

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