Um diagnóstico inesperado, uma recomendação médica e o encontro com uma prática que faz parte da minha vida
Há quinze anos, numa consulta médica, ouvi algo que jamais imaginei ouvir sobre mim mesma: você tem TDAH. Foi esse diagnóstico, e a recomendação que veio junto com ele, que me trouxeram até o Yoga.
A consulta que eu não esperava
Cheguei àquela consulta contando minha rotina, do jeito que eu sempre contava as coisas: rápido, agitada, pulando de um assunto para o outro sem perceber. Falava de tudo o que fazia no meu dia, das tarefas que acumulava, dos projetos que começava. O médico me ouviu, fez algumas perguntas e, então, olhou para mim e disse que eu tinha TDAH.
Eu ri por dentro. Expliquei que conhecia bem aquele quadro, que já tinha convivido com ele no trabalho, e que definitivamente não era o meu caso. Eu achava que sabia reconhecê-lo nos outros; nunca tinha pensado em olhar para dentro de mim com a mesma atenção.
Ele continuou perguntando sobre meus hábitos e minha rotina. A cada pergunta, eu respondia que não, que aquilo não acontecia comigo. Ao meu lado, meu marido balançava a cabeça, confirmando exatamente o contrário de tudo que eu dizia. No fim, quando comecei a justificar por que fazia isso e aquilo, ele não aguentou e falou para o médico: ela tenta fazer, ela diz que faz, mas ela não faz. Eu fiquei quieta. Foi a primeira vez, naquela consulta, que parei de falar e realmente escutei.
Duas recomendações, um encontro
O médico então me deu duas orientações. A primeira era começar um tratamento medicamentoso de longa duração. A segunda era: comece a praticar Yoga.
O Yoga não era exatamente uma novidade na minha vida. Eu já tinha tentado praticar durante a minha gestação, e cheguei a procurar aquela que se tornaria, dali a pouco, minha professora por dez anos. Fui até ela três ou quatro vezes, mas, como uma boa portadora de TDAH que eu ainda não sabia que era, nunca conseguia sustentar a prática. Havia sempre alguma outra coisa para fazer, alguma tarefa mais urgente, alguma pendência que parecia não poder esperar. O Yoga ficava sempre para depois.
Dessa vez, porém, com uma recomendação médica em mãos, algo mudou. Talvez porque, pela primeira vez, eu tivesse permissão para colocar aquilo como prioridade, e não como mais uma coisa entre tantas outras. Comecei a praticar de verdade, sem pular semanas, sem adiar. Com acompanhamento médico, o tratamento foi sendo reavaliado ao longo do tempo. Dez anos depois, além de praticante, eu havia me tornado professora de Yoga.
O que mudou
O que o Yoga me ofereceu, ao longo desses anos, não foi uma cura nem uma solução rápida. Foi um espaço de atenção que eu, até então, não sabia como criar sozinha. No tapete, eu era convidada a fazer exatamente o oposto do que fazia no resto do dia: parar, respirar, permanecer alguns segundos numa postura, sentir o que estava acontecendo no meu corpo antes de sair correndo para a próxima coisa.
Aos poucos, aprendi a observar meu corpo, minha respiração e minha mente, e essa observação foi o que me ajudou a lidar melhor com a agitação que sempre fez parte de mim. Não é que a agitação tenha desaparecido. Mas passei a reconhecê-la, a perceber quando ela chegava, e isso já fazia toda a diferença. O Yoga não me transformou em outra pessoa; me ajudou a ficar mais inteira sendo quem eu já era.
Anos depois, decidi ir além da prática pessoal e me tornei professora. Hoje, quando ensino, carrego comigo aquela cena da consulta: a mulher que não conseguia se ouvir, até que alguém a fez parar e escutar. É esse convite que tento oferecer a cada aula.
O Yoga e a vida longe do Brasil
Hoje, moro fora do Brasil e sei o quanto a vida aqui pode nos deixar tão ocupadas quanto eu estava naquela consulta. Entre o trabalho, os filhos, um novo idioma e mil pequenas resoluções do dia a dia, é fácil viver no automático, sem tempo para perceber como estamos por dentro. A agenda de quem mora fora costuma ser cheia de coisas urgentes: documentos para resolver, e-mails para responder em outra língua, uma criança que precisa de ajuda com a lição de casa num sistema escolar diferente do que conhecemos. Nesse ritmo, sobra pouco espaço para se perguntar como, de fato, estamos.
Às vezes, somos nós mesmas que criamos esse espaço de pausa. Às vezes, como aconteceu comigo, é preciso que alguém, ou alguma coisa, nos convide a parar. De um jeito ou de outro, o convite continua o mesmo: voltar a atenção para dentro e perguntar como estamos.
Perguntas frequentes
O Yoga pode ajudar a treinar a atenção e a presença?
O Yoga pode ser uma ferramenta de apoio para treinar a atenção e a presença, sem substituir o acompanhamento médico ou psicológico quando ele é necessário. Os pranayamas e as posturas pedem alguns segundos de atenção ao corpo e à respiração, e isso ajuda nesse treino.
Preciso de avaliação médica para começar a praticar?
Se você tem problemas na coluna, nas articulações ou hérnias, especialmente cervical ou lombar, vale fazer uma avaliação médica antes e avisar o seu professor de Yoga, que vai adaptar as posturas necessárias. Isso não impede a prática: dentro do Hatha Yoga há muitas variações possíveis, e pessoas com dificuldade de mobilidade, inclusive cadeirantes, podem praticar. Yoga é para todos.
Yoga substitui tratamento médico ou psicológico?
Não. O Yoga convida a observar o corpo, a mente e as emoções, e pode ser uma ferramenta auxiliar tanto em tratamentos médicos quanto psicológicos, mas não os substitui.
Preciso ser flexível ou calma para começar?
Não. A flexibilidade vem com o tempo de prática, e o mesmo vale para a calma: ela é um efeito da prática, não um pré-requisito para começar.
É preciso ter algum diagnóstico ou indicação médica para começar?
Não. Se você sente um chamado para se cuidar, para viver o presente e para lidar melhor com as demandas de morar fora do Brasil, entre filhos, trabalho e um novo idioma, isso já é motivo suficiente para começar. Muitas pessoas chegam ao Yoga por indicação médica ou psicológica, mas essa indicação não é um requisito.






