“Como funciona a análise?”
Uma pergunta que escuto com frequência.
Mesmo depois de 19 anos de clínica, ainda me faz pensar em como responder. Nem sempre é simples explicar. Talvez seja justamente esse o ponto.
Os caminhos de um tratamento analítico não estão pré-estabelecidos.
Caminhamos juntos para dar sentido ao que você vive hoje, a partir da escuta da sua própria história, compreendendo os fios que ligam o que se passou com o que você sente e vive hoje.
O que acontece nas sessões?
Na análise, a associação livre é uma regra fundamental: falar sobre aquilo que vier à mente, sem precisar organizar previamente o que será dito ou selecionar apenas aquilo que parece importante.
É por meio da palavra que pensamentos, lembranças, sentimentos e associações podem encontrar espaço para serem escutados.
A psicanálise, criada por Freud, é associada à ideia de uma “cura pela palavra”: falar, recordar, repetir, construir sentidos e poder escutar de outro modo aquilo que nos acontece.
“Existem perguntas para antever o futuro. E outras para construí-lo.” (Milman, 2025, p. 167)
Quando abrimos as portas para esses questionamentos, não sabemos de antemão para onde eles nos levarão.
Ainda assim, fazemos isso em busca de respostas, inclusive daquelas que talvez não sejam exatamente as que desejávamos encontrar.
É possível fazer análise online? E o divã?
É sim possível fazer análise online. Embora o divã seja um símbolo muito ligado à psicanálise, ele é apenas um dos seus recursos.
O que diferencia a técnica psicanalítica de outras técnicas é a escuta e a forma de trabalho. A associação livre como forma de acesso ao inconsciente.
Nem todos os pacientes se sentem confortáveis em usar o divã, mesmo no atendimento presencial e isso não impede uma análise de acontecer.
Fica a dúvida: será que a psicanálise é para mim?
Alguns questionamentos são mais comuns do que imaginamos. Você provavelmente já se fez alguma destas perguntas:
“Por que continuo repetindo o mesmo padrão?”
“Consegui o que queria, mas não me sinto feliz.”
“Sei que não quero mais agir assim, mas, sem perceber, repito mesmo assim.”
A psicanálise nos convida a compreender esses movimentos internos com profundidade, sem respostas prontas.
“Às vezes, aceitar a confusão pode nos levar a lugares inesperados. Os paradoxos fazem parte desse jogo. Eles mostram que algumas perguntas valem mais pelo que nos fazem pensar do que pelo que nos fazem responder.” (Milman, 2025, p. 94-95)
Iniciamos (sim, no plural, analista e analisando) essa jornada como uma aposta nas transformações que esse trabalho pode produzir.
Uma aposta sustentada na escuta, na teoria e no método.
Uma aposta nos questionamentos.
E, durante o tratamento, você irá me dizer o que fazer?
Na ânsia de se ver livre do sofrimento, vem o pedido:
“Pode me dizer, eu sei que você já sabe!”
Muitos analistas já escutaram esse convite.
Não respondemos porque não temos uma resposta pronta.
Na análise, o ponto de chegada é construído sessão a sessão. Não nasce pronto.
Quando a resposta se constrói de dentro para fora, de forma singular, a partir da compreensão da sua história, a mudança ganha outro sentido. Tende a ser mais autêntica, profunda e sustentável ao longo do tempo.
E de onde virão essas respostas?
Há verdades que sabemos sem saber que sabemos. Se em um lugar psíquico sabemos, no outro permanecemos desconhecendo. Se, por vezes, reconhecemos, isso não significa que saibamos imediatamente o que fazer com aquilo que encontramos.
Esse é um dos cenários das salas de análise: encontrar as tais “verdades” que nos habitam e, principalmente, encontrar os endereçamentos que podemos dar a elas.
Muitas dessas descobertas nos pegam de surpresa. Ainda que essas verdades sejam nossas. Ainda que já estivessem, de alguma maneira, morando em nós, parecem ter vindo de surpresa.
Entrar em contato com as nossas verdades abre espaço para fazer escolhas de fato, para compreender quais caminhos realmente nos fazem sentido. Sair do piloto automático.
Por que psicanálise e não outra abordagem quando se mora fora?
Ao contrário de outras terapias que te ajudam a manejar a ansiedade de estar fora, a psicanálise te ajuda a entender por que, mesmo tendo conquistado o que queria fora, você continua com alguns sentimentos que já tinha no Brasil. Por vezes, exatamente aqueles que você imaginava que com a migração iriam se resolver.
Levamos conosco lembranças, formas de amar, medos, expectativas, histórias familiares, perdas, sonhos e maneiras de compreender o mundo. Nada disso passa pela alfândega. E, ainda assim, é justamente essa bagagem que mais pesa durante a adaptação. (Mestriner, 2026)
Juntos, vamos olhar para essa bagagem que passa despercebida.
Seria então a análise esse lugar para sustentarmos as perguntas pelo tempo que for necessário para que algo novo e, por vezes, inesperado, possa surgir?
Se Cazuza queria “pagar a conta do analista para nunca mais ter que saber quem eu sou”, temos um paradoxo aí: depois de saber um pouco mais sobre si, já não é tão simples voltar a não saber.
Arrisco dizer que ficamos habitados pela sensação de obviedade do que era desconhecido e pela ideia do “como eu nunca tinha percebido isso antes?”.
Ficou com vontade de saber como isso funcionaria para você? Ou com mais algum questionamento sobre a análise? Me escreva para conversarmos sobre como um trabalho analítico poderia se dar no seu caso.
Sou Angela Mazzotti Mestriner, Psicanalista e Psicóloga Clínica e Intercultural.
Atuo desde 2007 com escuta qualificada, atendendo tanto presencialmente em Caxias do Sul quanto online para brasileiros no exterior.
Leia também o artigo sobre invisibilidade e solidão
Referências:
CAZUZA. (1988) Ideologia.
Freud, Sigmund. (1912/1996) Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, VOL. XII. Rio de Janeiro: Imago
Freud, Sigmund. (1913/1996) Sobre o início do tratamento. (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, VOL. XII. Rio de Janeiro: Imago
Mestriner, M. A. (2026) Isolamento Social e Solidão no Processo Migratório em Mentes Imigrantes
Milman, Tulio (2025) Onde estás? – Porto Alegre: Citatel






