IA paciência como fica?
Meu pensamento divagava esses dias sobre o tempo em que vivemos, especialmente o tempo presente. Quanto tempo temos para fazer as coisas que precisamos, que nos interessam ou que apenas queremos? Quando te passam uma nova tarefa, surgem as perguntas: pra quando? Quanto tempo eu tenho? Como vou arranjar tempo pra mais isso?
O tempo das estações. O tempo das decisões. O de semear, o de colher. O ansioso tempo de espera. O tempo que passa rápido, num instante. O tempo que não basta. Seu tempo, o tempo do outro. O tempo todo. Todo o tempo.
O tempo que voa e o tempo que não chega
Um minuto é tão relativo: voa quando você tem algo a entregar e nunca chega quando você tem algo a receber. Pare um tempo pra pensar! O tempo que precisar, sem ser preciso nesse tempo. Apenas pare!
O tempo cronológico nem sempre coincide com o tempo psicológico, são muitas as variáveis envolvidas.
A internet e a nossa paciência
Quando a internet começou, em 1988, ainda discada, caía, discava de novo, caía. Tínhamos curiosidade, paciência, uma coisa levava a outra. Eram outros tempos… mais de trinta anos. Hoje queremos num clique instantâneo a tela tinindo, mostrando tudo, sem vagareza, o sinal no celular pulsando forte. Chame o técnico. Acabou a energia, bugou. Conserta isso logo. A internet provoca a nossa paciência. Notícias boas que instigam, ruins que desesperam, dúvidas que se acumulam, certezas que diminuem.
Quer a resposta? Procure no Google. Nas buscas em sites por Inteligência Artificial… O que aconteceu? Quem fez? Pra onde foi? Verdade? Fake? Você ainda não sabe? Em que tempo você vive?
O problema urgente é a paciência
Internet é top na tecnologia. A lança para o homem das cavernas também era. O problema nem é tanto a tecnologia voraz. O problema urgente é a paciência. Paciência que precisamos pra tudo: pra pesquisar, pra esperar, pra testar e comprovar, pro nenê nascer, pro bolo crescer, pra criança aprender, pro ovo chocar, pra esquecer, para as coisas que não mudam com o tempo.
E a paciência te espreita. Você, que impaciente não vê a importância que a paciência tem. Tenha paciência, comedida, mas tenha. Depois, seja paciente com alguém significativo que ainda não alcançou esse estágio de evolução. Sim, na evolução individual, como sendo um processo, você interage e depende disso. Como pode andar lado a lado se o outro está um passo atrás?
Um exercício com a mão não dominante
Você sabe escrever, certo? Conhece a ortografia básica em seu idioma-mãe. Aprendeu a escrever frases, com sujeito, predicado, objeto, asserção e razão. Parabéns! Desliga a tecnologia um tempinho, segue sem. Faz tudo isso de escrever muito bem, à mão. Agora, como exercício de paciência, faça a mesma coisa com sua mão não dominante. Ué, está difícil? Mas você conhece as regras da escrita, basta usar a outra mão. Só isso… Não, não é tão simples: precisa de treino, precisa de paciência, precisa de tempo. Tempo de adaptação e de acomodação. Artista e operário. Especialista e aprendiz. Soberba e humildade. Treino de desapego à vaidade. Isso me lembrou uma história verídica, que mais parece ficção. Veja só.
A história dos 100 metros rasos
Nos anos 80, eu fazia um curso em um Instituto de Ortofrenia. Numa dada ocasião de palestras, uma senhora palestrante, mãe de uma criança com Síndrome de Down, contou que havia uma competição de 100 metros rasos. A menina que liderava e chegaria vitoriosa deu uma freada e disse para a criança que vinha atrás dela: “Ganhe você, eu já ganhei ontem, essa é a sua vez!”. A criança que vinha em segundo lugar tomou a dianteira, triunfante, e venceu a prova.
A título de veracidade, essa passagem foi confirmada por um aluno meu, anos mais tarde, quando ele cursava fisioterapia e, numa exposição de trabalho em grupo, narrou o mesmo fato, ocorrido durante as paralimpíadas, quando ele fora árbitro. E eu, então professora da classe desse rapaz e avaliadora do trabalho apresentado, reconheci o fato que me fora narrado em duplicidade. Não que fosse necessária a confirmação dessa história, mas ela reforça uma peculiaridade humana: o quanto teimamos em acreditar num fato diante de nosso nariz, ao mesmo tempo em que às vezes damos crédito ao invisível.
Sinceramente, quem de nós, mortais, normais, sem síndromes classificadas no CID, faria isso? Abster-se da liderança no cobiçado pódio, de estampar sua marca, de reafirmar um grande ego e a competitividade, e ao invés disso pairar em segundo lugar, por opção voluntária. Quem faria isso?! De verdade, muitos de nós temos uma síndrome sim. Nós, normais, temos várias síndromes de diferentes des-classificações.
Paciência para aquietar
Paciência para aquietar. Quase uma redundância, mas é assim mesmo. Se você quer muito algo e não consegue na hora, a vontade até passa, você esquece. Veja como o tempo trabalha a seu favor nesse caso. Se conseguiu o que quer, sacia. Daí vem outro desejo, como uma peste que por dentro te contamina, e o anseio de outro tempo pra acontecer o desejado assola. Provoca, instiga, apressa, assanha. Agora o tempo é inimigo.
Não, não existe tempo amigo ou inimigo quando você tem o domínio, o controle. Não perca tempo em vão. Gaste bem seu tempo. De que modo?
Caetano Veloso tem uma resposta cantada para essa pergunta na canção “Oração ao Tempo”. Vale ouvir com calma, sem pressa.
Pare um tempo, antes que um tempo te pare.






