O ganho de peso após a mudança de país nem sempre está relacionado à comida americana. O estresse da imigração, a ansiedade e os desafios da adaptação podem transformar nossa relação com a alimentação.
Quando uma mulher se muda para os Estados Unidos e começa a ganhar peso, é muito comum ouvir que a culpa é da alimentação americana. Afinal, estamos falando do país dos hambúrgueres gigantes, dos refrigerantes enormes e de uma infinidade de chocolates, sorvetes e salgadinhos.
Mas será que é tão simples assim?
Como nutricionista e brasileira que também passou por essa experiência, acredito que precisamos olhar para uma questão muito maior: o que acontece com nosso corpo e nossas emoções quando precisamos reconstruir a vida em outro país?
A verdade é que, nos Estados Unidos, encontramos praticamente os mesmos alimentos que consumimos no Brasil. Arroz, feijão, carnes, ovos, frutas, verduras e legumes estão disponíveis nos supermercados. Portanto, é perfeitamente possível manter uma alimentação equilibrada por aqui.
O problema nem sempre é o que encontramos para comer, mas o que estamos vivendo enquanto comemos.
Mudar de país é muito mais estressante do que parece
Quem acompanha a vida de brasileiros no exterior pelas redes sociais costuma ver viagens, lugares bonitos, supermercados enormes e experiências interessantes.
O que nem sempre aparece são os bastidores dessa mudança.
Precisamos encontrar uma casa, abrir contas bancárias, entender o funcionamento do sistema de saúde, contratar seguros, resolver documentos, procurar emprego e aprender a lidar com uma burocracia completamente diferente da brasileira.
E ainda existe o desafio do inglês.
Mesmo quem estudou o idioma durante anos pode se surpreender com a velocidade da fala, os sotaques, as expressões regionais e as situações do cotidiano.
Nos Estados Unidos, muitas questões precisam ser resolvidas por telefone. E, quando seu inglês ainda não está afiadíssimo, uma simples ligação para o banco ou para o seguro-saúde pode provocar uma ansiedade enorme.
Agora imagine enfrentar tudo isso enquanto tenta encontrar seu espaço profissional, construir novas amizades, cuidar da família e se adaptar a uma cultura diferente.
É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Como o estresse da imigração influencia a alimentação?
O estresse não afeta apenas nosso estado emocional. Ele também pode modificar o sono, o apetite e o comportamento alimentar.
Em algumas pessoas, situações estressantes diminuem a fome. Em outras, aumentam a vontade de consumir alimentos altamente palatáveis, principalmente aqueles ricos em açúcar e gordura.
Isso acontece porque a alimentação também está relacionada aos mecanismos cerebrais de prazer e recompensa.
Depois de um dia cansativo, cheio de dificuldades e frustrações, comer algo gostoso pode proporcionar uma sensação momentânea de conforto.
E, quando esse comportamento se repete, podemos começar a utilizar a comida como uma forma de aliviar a ansiedade.
É importante esclarecer que comer por razões emocionais não significa necessariamente apresentar compulsão alimentar. O transtorno de compulsão alimentar envolve episódios recorrentes de perda de controle e precisa de avaliação profissional.
Mas mesmo sem um transtorno alimentar, o aumento da frequência dos lanches, dos beliscos e das porções pode favorecer o ganho de peso.
O efeito novidade: queremos experimentar tudo!
Além dos desafios emocionais, existe outro fator que influencia bastante nossa alimentação quando chegamos aos Estados Unidos: a curiosidade.
Entrar em um supermercado americano pode parecer uma atração turística.
São corredores inteiros de chocolates, dezenas de sabores de sorvete, biscoitos diferentes, salgadinhos que nunca vimos e restaurantes que conhecíamos apenas pela internet.
E é claro que queremos experimentar!
Afinal, também faz parte da experiência de morar em outro país conhecer novos sabores e costumes.
O problema é quando essa curiosidade se mistura à ansiedade e ao cansaço.
De repente, estamos comprando produtos que normalmente não compraríamos, experimentando novidades todos os dias e consumindo pequenas quantidades extras que, somadas, podem aumentar bastante nossa ingestão calórica.
Isso não significa que precisamos deixar de experimentar os alimentos americanos. Significa apenas que podemos fazer essas escolhas de maneira mais consciente.
Eu sou nutricionista e também passei por isso
Aos 43 anos, depois de mais de 15 anos trabalhando na área da educação, me tornei nutricionista e me mudei com minha família para a Califórnia.
Tudo praticamente ao mesmo tempo.
E posso dizer que, durante o primeiro mês, houve momentos em que achei que fosse surtar.
Era uma mistura de ansiedade, insegurança, burocracia, adaptação e uma quantidade enorme de informações novas.
Coisas simples, que eu resolvia rapidamente no Brasil, passaram a exigir muito mais tempo e energia.
E, enquanto tentava organizar essa nova vida, minha balança chegou a registrar três quilos a mais.
Sim, isso aconteceu comigo, mesmo sendo nutricionista.
Essa experiência reforçou algo que sempre considero importante no atendimento nutricional: conhecer os alimentos e saber o que devemos comer não nos torna imunes aos efeitos do estresse.
Nossa alimentação é influenciada pelas emoções, pelo ambiente, pelo sono, pela rotina e pelas condições em que estamos vivendo.
Também é importante lembrar que uma elevação rápida na balança nem sempre representa apenas gordura corporal. Retenção de líquidos, mudanças no funcionamento intestinal e variações na alimentação podem contribuir.
Como evitar o ganho de peso durante a adaptação aos Estados Unidos?
A primeira coisa é entender que você não precisa transformar sua alimentação em mais uma fonte de cobrança.
Mudar de país já é suficientemente desafiador.
Em vez de buscar uma dieta perfeita, procure construir uma rotina possível.
Mantenha em casa alimentos que já fazem parte dos seus hábitos, como arroz, feijão, ovos, carnes, frutas e vegetais. Organize algumas refeições para não depender exclusivamente de alimentos prontos nos dias mais corridos.
Permita-se conhecer os sabores americanos, mas sem sentir que precisa experimentar todas as novidades de uma vez.
E, principalmente, encontre momentos para cuidar da sua saúde emocional.
Uma caminhada pelo bairro, um treino de musculação, uma trilha ao ar livre ou qualquer atividade física de que você goste pode ajudar a aliviar a tensão.
O exercício não deve ser visto apenas como uma maneira de gastar calorias. Ele também contribui para o bem-estar, a qualidade do sono e a saúde mental.
Reserve um tempo para respirar, descansar e fazer algo prazeroso, mesmo quando sua lista de tarefas parecer interminável.
E, se perceber que está utilizando a comida frequentemente para lidar com a ansiedade ou apresentando episódios de perda de controle, considere buscar apoio profissional.
Recomeçar em outro país também exige cuidar de você
Morar nos Estados Unidos pode ser uma experiência maravilhosa, mas isso não significa que o processo de adaptação seja fácil.
Muitas vezes, estamos tão preocupadas em aprender inglês, conseguir emprego, resolver documentos e cuidar da família que deixamos nossa própria saúde em segundo plano.
Se você ganhou peso depois de se mudar, antes de culpar a comida americana ou sua falta de disciplina, observe o contexto em que está vivendo.
Como está seu sono? Sua ansiedade? Sua rotina? Você tem conseguido reservar algum tempo para si mesma?
Talvez seu corpo esteja apenas refletindo uma fase de mudanças intensas.
Porque mudar de país já é um grande desafio. Você não precisa transformar a alimentação em mais um.






