A chegada das festas de final de ano pode trazer consigo um peso para os imigrantes.
Para muitas pessoas fazer uma chamada de vídeo nesse momento ameniza a sensação de não estar fazendo parte, para outras isso piora ainda mais as coisas. Ver a ausência ao vivo e a cores parece reabrir uma ferida que vai sendo contornada nos demais dias.
Para quem mora no hemisfério norte a sensação é de que o final do ano acontece duas vezes. Em julho e novamente em dezembro. Há um descompasso entre o recomeço do calendário e do ano letivo com o imaginário de recomeço que se era acostumado a viver no Brasil nas férias de verão.
Não raro, as cobranças também dobram. A sensação de balanço do ano acaba acontecendo no novo e no antigo fuso.
Além da chegada do inverno, o que, por si só, pode ser um momento difícil para algumas pessoas também é o momento de decidir o que fazer nas festas de final de ano.
Nem sempre é possível visitar e receber a visita da família nesta época. As passagens costumam ter valores elevados, as férias nem sempre coincidem.
Os ritos de final de ano e o peso da distância
O natal e o ano novo carregam consigo uma simbologia especial do estar em família, da renovação de esperanças e, com isso, também um peso maior da distância.
E, se para algumas pessoas o natal é motivo de alegria e celebração, para outras essa não é bem uma verdade. Há uma pressão externa de estar feliz com esse momento, de estar empolgado com os rituais e internamente não encontramos um eco para isso.
É o primeiro ano longe de casa, é o primeiro ano após uma separação, é o primeiro ano sem aquela pessoa que faleceu, vem aquelas memórias do dia que teoricamente seria de alegria e que brigas homéricas aconteciam, das expectativas que se frustravam quando a celebração não era nem perto do que se desejava, enfim, mesmo que haja quase que uma imposição do externo para estar feliz, o interno (re)age com o seu repertório. (Escrevi sobre isso no meu texto sobre Depressão no Natal: Como Lidar com a Tristeza e Ansiedade no Fim de Ano – https://www.angelapsi.com.br/post/depressao-no-natal-como-lidar-com-a-tristeza-e-ansiedade-no-fim-de-ano).
É um misto de esperança e desespero, do que se reinicia e também dos planos que não se concretizaram.
Por que algumas dicas de como lidar com isso não parecem funcionar?
Estamos falando de sentimentos profundos e ambivalentes. A imigração proporciona crescimento, realização de sonhos, mas também cobra um preço alto do que ficou para trás.
Não é uma escolha simples e querer uma coisa não exclui sentir falta da outra.
A culpa de estar longe e a cobrança de não poder estar triste, afinal, você escolheu isso ou você está passando o natal no tal lugar, quantas pessoas queriam estar no seu lugar e uma infinidade de outros pensamentos nesta sequência.
O luto dos momentos perdidos também é parte do luto migratório, você já tinha pensado nisso?
Em psicanálise, falamos em trabalho do luto porque ele dá trabalho mesmo: reencontrar memórias, ressignificar o ocorrido, criar um espaço psíquico para o vazio deixado e, aos poucos, voltar a investir na vida, mesmo com a ausência. Um trabalho de tornar possível conviver com essa ausência. É um trabalho que não se faz sozinho.
Compreender as razões da sua escolha em migrar não anula a saudade. Estou aqui para te acompanhar neste processo, onde, juntos, podemos criar um espaço para a sua história e também para o futuro que você foi construir.
Referências Bibliográficas:
Berry, J. W. et. Al. (2006) Immigrant Youth: Acculturation, Identity, and Adaptation em International Association for Applied Psychology. (https://www.researchgate.net/publication/227498997_Immigrant_Youth_Acculturation_Identity_and_Adaptation).
Berry, J. W. (2009) A critique of critical acculturation em International Journal of Intercultural Relations 33 (p. 361–371) (https://www.researchgate.net/publication/223335999_A_Critique_of_Critical_Acculturation).
FREUD, S. Luto e melancolia (1917 [1915]). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
Mestriner, M. A. (2026) Isolamento Social e Solidão no Processo Migratório em Mentes Imigrantes. Orlando: RBL
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